Monday, 12 October 2026

BRANCA DE NEVE E A GUERRA MADRASTA DA EUROPA | RETHINKING SUSTAINABLE GOALS

thamíres. a thamíres tem uma filha pequena. filha pequena de cabelo negro cor branca-de-neve. branca-de-neve  que a  thamíres tentava proteger da guerra. guerra madrasta malvada da europa que não gostava de crianças. cabelo negro-branca-de-neve que ficava cinzento quando ia à rua. rua coberta de pó e de muco. muco peçonhento  que se colava aos pés. pés cansados de fugir. guerra madrasta malvada,  que consultava o espelho-humanidade para perguntar se existia maior perfeição do que a sua destruição. espelho-humanidade que respondia: a maior perfeição da europa são as crianças. guerra madrasta malvada da europa que em vingança fazia explodir as entranhas de um vulcão. vulcão-máquina ativado por homens e mulheres feitos de tecnocracia que se escudavam em armas da economia da destruição sob o mote marvel-franchise: escudo da democracia europeia. escudo  que  transformava a europa  em latas de conserva de sardinhas em tomate da  marca bom-sacrifício.  latas de conserva de sardinhas em tomate da marca bom-sacrifício vendidas  em  supermercados  como exemplo modelo-continente. armas vendidas na televisão como  bolo rei da versailles em publicidade feliz natal do  pingo-doce. crianças que não compreendiam a competição das respostas trocadas. respostas lançadas por narizes importantes que falam sempre mais alto. respostas que nunca ficavam sem-resposta. guerra madrasta malvada da europa que engordava  com a destruição que provocava.    destruição que a thamíres amortecia com panos enrolados à volta da cabeça da filha. panos que pesavam. branca-de-neve disfarçada com panos à volta da cabeça para nunca ser apanhada pela guerra madrasta malvada da europa. guerra madrasta  malvada da europa que gostava de escrever a história dos livros de escola das crianças como lições-a-decorar. lições que a thamíres  lia à filha para a distrair da fome. fome que fazia a branca-de-neve cair num sono longo. feitiço-do-sono que a thamíres quebrava com um beijo de mãe-europa. guerra madrasta malvada da europa que voltava a perguntar ao espelho-humanidade se existia maior perfeição-mundo do que  a força  da sua destruição. espelho-humanidade que respondia: a maior perfeição da europa é a força da economia do amor de mãe.


OBRIGADA A TODAS AS MÃES QUE, COM UM BEIJO, ALIMENTAM AS ESPERANÇAS DA ECONOMIA-EUROPA.


Tuesday, 6 October 2026

UM HOMEM-COM-FOME | RETHINKING SUSTAINABLE DEVELOPMENT GOALS

ontem encontrei um Homem que tinha fome. fome de-comida que o corpo pede para funcionar. ele andava à procura de comida nos restos que os-outros  largavam ao lixo.  perguntei-lhe se Ele tinha fome. Ele não respondeu. Ele baixou os olhos.  toquei-lhe no ombro e pedi-lhe que esperasse por mim.   corri ao café mais perto e pedi uma sopa. pedi uma sandes mista. pedi um bolo de arroz. e pedi uma garrafa de água. quando voltei, entreguei-lhe o saco com a comida. Ele sentou-se e num gesto delicado pediu-me para que eu me sentasse ao  lado dEle.   pensei nas doenças. no cheiro. na sujidade. mas nada disso importou quando diante de mim estava um Homem-com-fome. sentei-me.  devagar Ele tirou do saco a sopa. Ele tirou do saco a sandes mista. Ele tirou do saco a água e o bolo de arroz. Ele ofereceu-me o bolo de arroz  num ato de sublimada reverência que o fez inclinar a cabeça e baixar os olhos na minha direção. de imediato fui atravessada por um sentimento de humanidade que nunca tinha sentido. aceitei o bolo de arroz. observei que Ele só começou a comer depois de se certificar  que eu já comia. Ele comia devagar na certeza de quem já não se deixava dominar pelas palavras de fome faladas pelo corpo.  o bolo de arroz estava a  alimentar-me a alma.  foi então que no silêncio compreendi que Ele tinha-me oferecido o lado doce da  vida.  senti-me verdadeiramente abençoada pela sua generosidade. Ele comeu. levantou-se. e caminhou. nunca mais o vi. sagrado  bolo de arroz.


PEDIMOS DESCULPA A TODO O HOMEM QUE, HOJE, PASSA  FOME EM PORTUGAL.

Thursday, 1 October 2026

A ALDEIA DAS TERRAS-NEGRAS E AS NAÇÕES INTELIGENTES UNIDAS | RETHINK SUSTAINABLE GOALS

hakika era o nome de nascimento de uma menina. menina  que nasceu numa aldeia.  aldeia que ficava nas terras-negras onde não cresciam flores. hakika era negra como a cor da terra que pisava e só descobriu que havia terras-de-outras-cores quando marie-anne, uma médica belga que a hakika chamava de curandeira-cor-de-dentes, apareceu na sua aldeia. hakika acreditava que a cor da pele  era dada pela terra que se pisava e imaginava  que a terra de marrie-anne fosse branca cor-de-dentes.  hakika interrogava-se se o sangue de marie-anne seria encarnado como o  pôr-do-sol da sua terra. marie-anne, ao adivinhar a  curiosidade de hakika, mostrou-lhe uma ferida que tinha no dedo. hakika respirou  de alívio ao   confirmar a  teoria que tinha imaginado: as pessoas são todas iguais por dentro independentemente da cor  da terra donde vêm. todas as  descobertas de hakika tinham nascido  da curiosidade de hakika. assim tinha acontecido quando hakika  descobriu que ser  menina na sua terra só lhe trazia tarefas. hakika zangada perguntava à mãe porque não a tinha feito menino. a mãe de hakika  dizia-lhe:  a perfeição de uma flor só pode nascer da barriga de uma mulher.  como hakika nunca tinha visto flores,  duvidava do que a mãe lhe dizia,  culpando-a por a ter feito menina. um dia o homem cor-da-terra-negra, que governava a aldeia, vendeu a hakika ao homem rico das terras-cor-de-dentes. hakika desapareceu e nunca mais foi vista. meses passaram. um dia aconteceu hakika ter sido encontrada no chão, desnudada e muito maltratada. a mulher mais velha da aldeia olhou para a barriga de hakika e chamou pela  mãe da vida para salvar a  vida que aí vinha. hakika morreu  menina sem conseguir  fazer nascer a flor que tinha crescido em terra-sagrada de barriga-mulher. as mulheres da aldeia coroaram  hakika  rainha-das-terras-negras, embrulharam a filha nos seus braços e enterram ambas por  baixo  da maior árvore da aldeia.   árvore da aldeia, dantes  estéril, passou a dar flores com cor. flores da árvore da aldeia que mastigadas curavam as maleitas de mulher e guardavam as meninas de todo o mal. o segredo da árvore-dos-milagres-mulher  passou de mulher para mulher. as sementes da árvore-dos-milagres-mulher passaram de terra para terra, com a ajuda dos pássaros que passaram a  guardar os céus da aldeia.  o homem-cor-das-terras-negras,  que governava a aldeia, viu grande ameaça na árvore e grande insubordinação nos pássaros. segundo o pensamento do homem-cor-das-terras-negras, a árvore tirava-lhe a riqueza e os pássaros tiravam-lhe a autoridade.  pediu o homem cor-das-terras-negras ajuda ao seu amigo,  o homem rico das terras-cor-de-dentes. o homem rico das terras-cor-de-dentes  decidiu levar a grande ameaça e a grande insubordinação à assembleia  das nações-inteligentes-unidas. a assembleia das nações-inteligentes-unidas decidiu que a grande ameaça e a grande insubordinação tinham de ser eliminadas e mandou plantar, no lugar das árvores-dos-milagres-mulher,   moinhos eólicos que mandou chamar de árvores-do-dinheiro-verde, e no lugar dos pássaros  mandou  drones  que passou a chamar de pássaros-da-paz.  as pessoas da aldeia juntavam-se à volta da árvore-do-dinheiro-verde e esperavam que a fome acabasse e que o dinheiro-verde chegasse, mas a fome e a pobreza cresciam. as pessoas da aldeia observavam os céus e esperavam que os  pássaros-da-paz acabassem com as guerras, mas as guerras cresciam. um dia as mulheres da aldeia  decidiram tomar o assunto pelas suas mãos. e assim todos os dias ao nascer e ao pôr do sol, para espantar a maldição, as mulheres e as meninas da aldeia dançavam e cantavam canções  à volta da árvore-do-dinheiro-verde. três semanas depois,  a árvore-dos-milagres-mulher rompeu a terra e com a sua força fez tombar a árvore-do-dinheiro-verde. os pássaros vieram em defesa da árvore-dos-milagres-mulher e com a sua determinação fizeram tombar todos os pássaros-da-paz.  o homem da cor-das-terras-negras, que governava a aldeia,  fugiu para a assembleia das nações  inteligentes unidas onde passou a defender a restauração da democracia nas terras-negras. a assembleia das  nações unidas inteligentes reuniu de emergência e decidiu ocultar, em arquivo-sem-nome, a aldeia  onde as mulheres da cor-das-terras-negras derrubaram as árvores-do-dinheiro-verde e os pássaros-da-paz das nações inteligentes unidas. 


#ODS1 + #ODS2 + #ODS3 + #ODS#4 + #ODS5 + #ODS 6 + #ODS7 + #ODS8 + #ODS9 + #ODS10 + #ODS11 + #ODS12 +#ODS13 + #ODS14 + #ODS15 #ODS16 + #ODS17  OBRIGADA A TODAS AS ÁRVORES E A TODOS OS PÁSSAROS QUE FAZEM CAIR AS ÁRVORES-DO-DINHEIRO-VERDE E OS PÁSSAROS-DA-PAZ CRIADOS PELA CIÊNCIA DO  MARKETING DAS NAÇÕES INTELIGENTES UNIDAS.

A NEOPLASIA MALIGNA PORTUGUESA | RETHINKING SUSTAINABLE GOALS

SÉRIE - RETHINKING SUSTAINABLE DEVELOPMENT GOALS
time-reading-barometer | 2 minutes 19  seconds | 301  words 

posição-tartaruga.  colocar a cabeça entre os braços.  braços a proteger a cabeça. airpods nos ouvidos.  twinkle, twinkle little star. how I wonder what you are. up above the world so high. like a diamond in the sky. posição-tartaruga de proteção que a isabel ensinou à ritinha. isabel que em miúda tinha sonhado  com casamento-de-princesa.  beijo de princesa que não conseguiu transformar  em príncipe o sapo. sapo que com bonitas promessas a tinha encantado. princesa transformada em rainha condenada à maldição do jogo do rei-manda. jogo do rei-manda que  a ritinha brincava na escola sem adivinhar o que significava. isabel  que  tinha de obedecer ao  rei-manda ou ele lhe dizia esconder  a ritinha para todo o sempre. o rei-manda com quem falar. o rei-manda o que vestir. o rei-manda quando falar. o rei-manda quando sair. o rei-manda o que pensar. o rei-manda. o rei-manda  um dia surpreendeu a isabel com a ritinha na padaria a comprar bolos. bolos que o rei-manda não tinha mandado comprar. isabel que escondeu os bolos no regaço. posição tartaruga de proteção. ritinha que colocou os airpods. twinkle twinkle little star.  how I wonder what you are.up above the world so high. like a diamond in the sky. o que escondes no teu regaço? - perguntou o rei-manda à isabel. isabel que se ajoelhou e respondeu: são rosas meu amor. rosas em janeiro?! - desconfiou o rei-manda. rosas que caíram do regaço da isabel.  milagre das rosas que voltou a acontecer em portugal. isabel que de olhos fechados esperou pela mão pesada da justiça do rei-manda. padeira de aljubarrota  que ao ver a-mão do rei-manda a tombar  sobre o corpo dobrado da isabel expulsou o rei-manda com a força da pá de ir ao forno. mulher-padeira de aljubarrota que voltou a defender portugal de quem lhe queria mal. mãe, já podes abrir os olhos... -  sussurrou  a ritinha ao ouvido da  mãe.  

#ODS1 + #ODS2 + #ODS3 + #ODS#4 + #ODS5 + #ODS 6 + #ODS7 + #ODS8 + #ODS9 + #ODS10 + #ODS11 + #ODS12 +#ODS13 + #ODS14 + #ODS15 #ODS16 + #ODS17 PEDIMOS DESCULPA A TODAS AS MULHERES E CRIANÇAS QUE AINDA HOJE  SÃO VÍTIMAS DO JOGO DO REI MANDA.   




Wednesday, 30 September 2026

A FÉ PORTUGUESA QUE SEMPRE SE CONSERVARÁ | RETHINKING SUSTAINABLE DEVELOPMENT GOALS


amélia. amélia que ao apalpar a mama encontrou um pequeno caroço. caroço que à amélia fazia lembrar  das cerejas do fundão. cerejas do fundão que a amélia comia para depois cuspir o caroço para o chão. chão de terra fértil  que fazia crescer cerejeiras em flor antes do verão. caroço da  amélia que cresceu na terra errada.  cultura  da cerejeira que também era atacada por pragas  que enfraqueciam a colheita. colheita do sangue da amélia que confirmava que o-caroço não era da qualidade do caroço das cerejas do fundão. caroço que  tinha levado  a irmã da amélia. caroço que  tinha levado a mãe da amélia. caroço que  tinha levado a  avó da amélia.  a-seguir  seria a amélia. certeza  que a amélia recusava porque tinha fé na flor das cerejeiras do fundão.  amélia atacada pela praga que de amiúde colhia vida  às mulheres. amélia que se observava ao espelho com uma tábua rasa  ao peito. amélia que não se conseguia imaginar tábua rasa. amélia que também não conseguia imaginar portugal  sem  as cerejas do fundão.  cerejas que também não imaginavam portugal sem a alegria da amélia. amélia que cantava canção para abençoar as cerejas do fundão   antes de cada verão. verão que tardava num inverno duro de  roer. cerejeiras que choravam quando eram podadas. amélia que também chorava quando se via ao espelho. geadas de dor que queimaram esperanças em flor. primavera de cor que  trouxe boa nova em florada. fé da amélia que  voltou  a sentir o sabor das cerejas do fundão que tanta alegria lhe entregavam ao coração.  caroços das cerejas do fundão que  a amélia cuspia com força para o chão  para  que crescessem sempre na terra certa. 

#ODS1 + #ODS2 + #ODS3 + #ODS#4 + #ODS5 + #ODS 6 + #ODS7 + #ODS8 + #ODS9 + #ODS10 + #ODS11 + #ODS12 +#ODS13 + #ODS14 + #ODS15 #ODS16 + #ODS17 OBRIGADA ÀS CEREJAS DO FUNDÃO POR CONSERVAREM A FÉ EM TERRA PORTUGUESA.

ODS: OBJETIVOS DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

ABRACADABRA.BIGBANG. PRINCIPIA HUMANITATIS






Tuesday, 29 September 2026

ABENÇOADA SEJA A MARSELHESA COMO ALIMENTO À MESA | RETHINKING SUSTAINABLE GOALS


time-reading-barometer | 1 minute  58 seconds |  396  words | republished


numa cozinha dum restaurante de nome menos importante havia uma mãe com dotes de cozinheira,   vidente e curandeira. as suas mãos abençoadas, e o seu corpo roliço de mulher parideira, faziam dela  mãe-guerreira. mãe-guerreira que tinha dado  à luz sozinha quando era  malfadado   ser-se vista no mundo como mãe solteira.  mãe que usava a colher de pau  para abençoar a comida que lhe vinha à mão. que abençoava a diversidade da alface. abençoava  a diversidade da fruta. abençoava a diversidade do que o mar dava. abençoava o vinho do porto. o azeite da toscana. a manteiga da bretanha. o caviar do mar cáspio. o bucho de ovelha da escócia. o presunto de bolota da estremadura. a carne de galinha. a carne de vaca. a carne de porco e tudo o que vinha da terra e do mar. terra que alimenta vida tem de ser agradecida e enobrecida - ela avisava. com espanto observava como nos supermercados da união europeia tudo luzia igual.  a natureza não paria assim! - ela estranhava. logo compreendeu onde a união se tinha perdido: na ilusão de pensar que  tinha por alimento o brilho da uniformidade.   mãe que no calor do forno cozinhava a poção que devolvia o sabor da verdadeira liberdade a quem o paladar da liberdade humana tinha perdido. numa quinta  guardava as sementes primeiras  da  humanidade e  criava o que precisava.  quinta que era governada pela mãe-natureza pelo que ela confiava na sua origem. quando se brinca com o que se come cresce aflição - pressagiava. cada prato do restaurante era escolhido por ela. ela só precisava de olhar para quem o prato alimentava para de imediato saber o sabor da liberdade  que na vida lhe faltava. qualidade de mãe que abençoava a diversidade  da cultura de cada país. a condição  que impunha era a de se comer com fé na marselhesa. marselhesa que  entoava para  chamar as crianças  à mesa:  allons enfants de la patrie; le jour de gloire est arrivé; contre nous de la tyrannie; l'étendard sanglant est levé (...) Liberté, liberté chérie; liberté, liberté chérie, combats avec tes défenseurs; combats avec tes défenseurs; sous nos drapeaux que la victoire; accure les mâles accents; que tes ennemies expirants voient ton triomphe e notre gloire  (...) .  na sua cozinha  todas as formas de tirania eram  afastadas com a panela que havia à mão ao som da marselhesa como canção. o sabor da  comida não tinha comparação com nada que havia. sabor que  enchia os sentidos da alma  com a essência  da verdadeira  liberdade ocidental. abençoada seja a marselhesa como alimento  à mesa! - ela gritava.

#ODS1 + #ODS2 + #ODS3 + #ODS4 + #ODS5 + #ODS6 + #ODS7 + #ODS8 + ODS9 + ODS10 + ODS11 + ODS12 + ODS13 + ODS14 + ODS15 + ODS16 + ODS17  OBRIGADA À MARSELHESA POR ALIMENTAR A LIBERDADE CONTRA A TIRANIA DO CONTROLO DE PENSAMENTO DA UNIÃO EUROPEIA.

ODS = Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (17Steps4Sustainability).

Monday, 28 September 2026

A MALDIÇÃO DA TELEVISÃO QUE CONDENOU PORTUGAL A UM SONO MORBOSO | RETHINKING SUSTAINABLE GOALS

SÉRIE - RETHINKING SUSTAINABLE DEVELOPMENT GOALS
time-reading-barometer | 2 minutes 44 seconds | 547 words | reshaped
17steps@principiahumanitatis.org

alberto da ponte d’andrade era casado. médico de profissão. tinha dois filhos. o alberto tinha saído um pouco mais cedo do hospital para comprar um pequeno televisor para a mulher que fazia anos. o alberto queria fazer a surpresa do presente à amélia. surpresa que à semelhança das surpresas anteriores trazia sempre água no bico. o alberto tinha por hábito transformar em seus os presentes que comprava para a  mulher. assim acontecera quando lhe ofereceu uma viagem ao mónaco para poder  ir  ao jogo do benfica. ou quando lhe ofereceu um telemóvel de última geração sabendo que ela não o iria saber usar. ou quando lhe  ofereceu um carro descapotável que passou  a ser ele a conduzir  porque dizia  não conseguir suportar o ciúme. a amélia ficou surpreendida com o pequeno televisor porque não era bem o presente que tinha desejado.  o alberto argumentou  ter comprado o televisor especialmente para a ela  porque não  gostava de a ver sozinha na cozinha. na verdade a amélia sabia que passava  muito tempo sozinha na cozinha com os seus pensamentos. pensamentos que a televisão servia para afastar.   o alberto dizia que a amélia não podia pensar tanto. a amélia  ficava sempre emocionada pela razão do alberto.  a amélia tinha cozinhado carne assada regada com vinho do porto acompanhada com batata assada. batata assada salpicada com flor de sal e rosmaninho. o cheiro antecipava o sabor da memória que iria ficar.  a amélia serviu o jantar de  aniversário na cozinha para estrear o presente do alberto. o noticiário da noite abria com a história de mais uma tempestade. tempestades que  a televisão mostrava aparecerem como cogumelos. cogumelos que cresciam no inverno porque a televisão garantia ainda haver árvores em portugal a destruir.  árvores que no verão desapareciam  aos montes enquanto portugal  afogado no fumo  esperava por dom sebastião. fumo que escondia o inferno  que comia tudo em portugal. inferno que pedia água. água que a televisão dizia no verão não haver por causa da praga da seca. praga da seca que no inverno morria molhada por causa das tempestades. água que aumentava as desgraças em portugal. desgraças que vinham sempre em ondas grandes pelo ecrã da televisão. a amélia pousou os talheres.  apesar da amélia ser enfermeira, e de  ter visto muita coisa feia ao longo da vida, ficou surpresa com a indiferença do marido e dos filhos  que continuavam a empurrar a comida com o olhar preso à televisão. a amélia por segundos  ponderou qual seria a imagem mais pérfida: a que assistia na televisão ou a que assistia à mesa... desconforto que a amélia afastou pois sentiu estar  a dar-lhe demasiada importância.  desconforto  que pedia um intervalo-limpa-palato da publicidade. distração da publicidade  que abriu a  hora do bolo de aniversário.  hora do bolo passada ao som dos programas da televisão. programas da televisão que  provocavam perda de paladar. perda de olfato e perda de orientação. sintomas tapados com mais bolo. bolo que enchia a barriga. barriga cheia que provoca sono a portugal. 

#ODS1+#ODS2+#ODS3+#ODS4+#ODS5+#ODS6+#ODS7+ #ODS8 + #ODS9 + #ODS10 + #ODS11  + #ODS12 + #ODS13 + #ODS14 + #ODS15 + #ODS16 + #ODS17  PEDIMOS DESCULPA ÀS NOVAS GERAÇÕES PELA MALDIÇÃO DA TELEVISÃO PORTUGUESA CONDENAR QUEM A CONSOME A UM SONO MORBOSO. 

ODS =