Wednesday, 30 June 2021

SÍNDROME DA APATIA DO OBSERVADOR | RETHINKING SUSTAINABLE GOALS

SÉRIE - RETHINKING SUSTAINABLE DEVELOPMENT GOALS
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Alberto da Ponte d’Andrade era casado. médico de profissão.  dois filhos. Alberto tinha saído um pouco mais cedo do hospital para comprar um pequeno televisor para a Amélia que fazia anos. o Alberto queria fazer a surpresa do presente à Amélia. surpresa que à semelhança das surpresas anteriores trazia sempre água no bico. o Alberto tinha por hábito transformar em seus os presentes que comprava para a mulher. assim  tinha acontecido quando lhe ofereceu uma viagem ao Mónaco para poder  assistir ao jogo do Benfica. ou quando lhe tinha  oferecido um telemóvel de última geração sabendo  que ela não o iria conseguir  usar. ou quando lhe tinha oferecido um carro descapotável que passou  a ser ele a conduzir  porque dizia  não conseguir suportar o ciúme. a Amélia ficou surpreendida com o pequeno televisor porque não era bem o presente que tinha desejado.  o Alberto argumentou  ter comprado aquele televisor especialmente para ela porque não gostava de a ver sozinha na cozinha.  a Amélia passava muito tempo sozinha na cozinha com os seus pensamentos. pensamentos que a  televisão servia para afastar. o alberto dizia que a Amélia não podia pensar tanto. a Amélia ficou emocionada pela forma como o alberto a conhecia tão bem.  a Amélia tinha cozinhado carne assada regada com vinho do Porto acompanhada com batata assada salpicada com flor de sal e rosmaninho. o cheiro antecipava o sabor da memória que iria ficar.  a Amélia serviu o jantar de  aniversário na cozinha para estrear o presente  com o olhar da família já sobre a televisão. o noticiário da noite abria com a lista diária  de infetados e mortos.  infetados e mortos sem nome. infetados e mortos que cresciam como cogumelos. cogumelos que não cresciam porque não haviam árvores.  árvores que desapareciam  aos montes entre o fumo dos incêndios. fumo que provocava desastres. desastres que matavam gente e mais gente. a Amélia pousou os talheres. apesar de ser enfermeira e de  ter presenciado muita coisa feia ficou surpresa com a indiferença do marido e dos filhos  que continuavam a empurrar a comida com o olhar preso às imagens e às palavras  horrendas que corriam na televisão. a Amélia por segundos  ponderou qual seria a imagem mais pérfida - a que assistia na televisão ou a que assistia à mesa. desconforto que a Amélia sentiu estar  a dar demasiada importância  afinal! era o seu dia de aniversário. intervalo . hora do bolo de aniversário.  hora do entretenimento passado pela programação-televisão. programação-televisão que  provocava  perda de paladar, perda de olfato e perda de pensamento. sintomas tapados com  sobremesa que enchia a barriga. barriga cheia que provocava sono.  

#ODS1 + #ODS4 + #ODS5  PEDIMOS DESCULPA PELA PROGRAMAÇÃO DOS MEDIA PRIVILEGIAR  A ESPÉCIE HOMO VULGARIS  E NÃO A ESPÉCIE HOMO INTELLIGENTIA .