hakika era o nome de nascimento de uma menina. menina que nasceu numa aldeia. aldeia que ficava nas terras-negras onde não cresciam flores. hakika era negra como a cor da terra que pisava e só descobriu que havia
terras-de-outras-cores quando
marie-anne, uma médica belga que a hakika chamava de
curandeira-cor-de-dentes, apareceu na sua aldeia. hakika acreditava que a cor da pele era dada pela terra que se pisava
e imaginava que a terra de marrie-anne fosse branca
cor-de-dentes. hakika interrogava-se se o sangue de marie-anne seria encarnado como o
pôr-do-sol da sua terra. marie-anne, ao adivinhar a
curiosidade de hakika, mostrou-lhe uma ferida que tinha no dedo. hakika respirou de alívio ao confirmar a teoria que tinha imaginado:
as pessoas são todas iguais por dentro independentemente da cor da terra donde vêm. todas as descobertas de hakika tinham nascido da curiosidade de hakika. assim tinha acontecido quando hakika descobriu que ser menina na sua terra só lhe trazia tarefas. hakika zangada perguntava à mãe porque não a tinha feito menino. a mãe de hakika dizia-lhe:
a perfeição de uma flor só pode nascer da barriga de uma mulher. como hakika nunca tinha visto flores, duvidava do que a mãe lhe dizia, culpando-a por a ter feito menina. um dia o
homem cor-da-terra-negra, que governava a aldeia, vendeu a hakika ao homem rico das
terras-cor-de-dentes. hakika desapareceu e nunca mais foi vista. meses passaram. um dia aconteceu hakika ter sido encontrada no chão, desnudada e muito maltratada. a mulher mais velha da aldeia olhou para a barriga de hakika e chamou pela mãe da vida para salvar a vida que aí vinha. hakika morreu menina sem conseguir fazer nascer a flor que tinha crescido em
terra-sagrada de
barriga-mulher. as mulheres da aldeia coroaram hakika
rainha-das-terras-negras, embrulharam a filha nos seus braços e enterram ambas por baixo da maior árvore da aldeia. árvore da aldeia, dantes estéril, passou a dar flores com cor. flores da árvore da aldeia que mastigadas curavam as maleitas de mulher e guardavam as meninas de todo o mal. o segredo da
árvore-dos-milagres-mulher passou de mulher para mulher. as sementes da árvore-dos-milagres-mulher passaram de terra para terra, com a ajuda dos pássaros que passaram a guardar os céus da aldeia. o
homem-cor-das-terras-negras, que governava a aldeia, viu grande ameaça na árvore e grande insubordinação nos pássaros. segundo o pensamento do homem-cor-das-terras-negras, a árvore tirava-lhe a riqueza e os pássaros tiravam-lhe a autoridade. pediu o homem
cor-das-terras-negras ajuda ao seu amigo, o homem rico das
terras-cor-de-dentes. o homem rico das terras-cor-de-dentes decidiu levar
a grande ameaça e a grande insubordinação à assembleia das nações-inteligentes-unidas. a assembleia das nações-inteligentes-unidas decidiu que a grande ameaça e a grande insubordinação tinham de ser eliminadas e mandou plantar, no lugar das
árvores-dos-milagres-mulher, moinhos eólicos que mandou chamar de
árvores-do-dinheiro-verde, e no lugar dos pássaros mandou
drones que passou a chamar de
pássaros-da-paz. as pessoas da aldeia juntavam-se à volta da
árvore-do-dinheiro-verde e esperavam que a fome acabasse e que o
dinheiro-verde chegasse, mas a fome e a pobreza cresciam. as pessoas da aldeia observavam os céus e esperavam que os
pássaros-da-paz acabassem com as guerras, mas as guerras cresciam. um dia as mulheres da aldeia decidiram tomar o assunto pelas suas mãos. e assim todos os dias ao nascer e ao pôr do sol, para espantar a maldição, as mulheres e as meninas da aldeia dançavam e cantavam canções à volta da
árvore-do-dinheiro-verde. três semanas depois, a
árvore-dos-milagres-mulher rompeu a terra e com a sua força fez tombar a
árvore-do-dinheiro-verde. os pássaros vieram em defesa da
árvore-dos-milagres-mulher e com a sua determinação fizeram tombar todos os
pássaros-da-paz. o homem da
cor-das-terras-negras, que governava a aldeia, fugiu para a assembleia das
nações inteligentes unidas onde passou a defender
a restauração da democracia nas terras-negras. a assembleia das nações unidas inteligentes reuniu de emergência e decidiu ocultar, em arquivo-sem-nome, a aldeia onde as mulheres da
cor-das-terras-negras derrubaram as
árvores-do-dinheiro-verde e os
pássaros-da-paz das nações inteligentes unidas.