Friday, 28 May 2021

AMOR AMPLO | RETHINKING SUSTAINABLE GOALS

SÉRIE - RETHINKING SUSTAINABLE DEVELOPMENT GOALS
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a Jacinta sabia que  era  mulher-velha.  a Jacinta sabia que era  mulher-velha quando tocava no  ventre outrora planície fértil e quente  e encontrava  um relevo seco e frio incapaz de florir. a Jacinta sabia  que era mulher velha quando olhava para o seu rosto outrora  tela imaculada e  encontrava traços preenchidos com histórias de menina que nunca tinha contado a ninguém. a Jacinta sabia que era mulher velha quando arrancava  os  pelos grossos e negros do  queixo e se lembrava das-coisas que tinham ficado por fazer. a Jacinta sabia que era mulher velha  quando olhava os  seios outrora firmes e redondos agora  transformados em pêndulos sem norte. a-morte não assustava  a  Jacinta. o silêncio do esquecimento assustava a Jacinta. todos os dias para não se esquecer do que tinha vivido  a Jacinta repetia as coisas como quem repete uma oração de proteção. não havia dia  em que  a Jacinta não se arranjasse. a Jacinta não se arranjava por vaidade mas porque não queria ser esquecida feia e  então repetia para não  esquecer:  bonita e arranjada. bonita e arranjada. bonita e arranjada. o  António tinha sido o marido e  o único grand'amor da Jacinta.  com o António a Jacinta falava todos os dias sobre  como se sentia estranha num corpo que secava diariamente. como se sentia estranha a viver numa mente que a enganava sempre que ela não estava atenta. como se sentia estranha a viver numa casa cada vez mais dada ao vazio do esquecimento. a Jacinta e o António sempre falaram muito um com o outro. a Jacinta ainda  tinha viva a memória daquele dia em que o António a surpreendeu nua no quarto. a  Jacinta tentou tapar o seu corpo velho com a toalha mas o António delicadamente a impediu despindo-se também. ambos olharam para o corpo um do outro com os olhos de quem encontra  no outro o sentido amplo do amor. a Jacinta considerava ter tido muita sorte em ter conhecido o amor  através do António. as conversas dentro da cabeça da Jacinta deixavam-lhe   sempre lágrimas de muita saudade.  lágrimas que caíam sobre os  sapatos de verniz verde azeitona. sapatos de verniz verde azeitona que o António lhe tinha oferecido num dia de aniversário esquecido. sapatos de verniz verde azeitona que a Jacinta dava graças a Deus por não lhe magoarem os joanetes.    sentada na  velha poltrona um dia a Jacinta encontrou  paz. esqueceu e adormeceu. bonita e arranjada. bonita e arranjada. bonita e arranjada. 

#ODS1+ #ODS2 + #ODS3 + #ODS4 + #ODS5 + #ODS6 + #ODS7 + #ODS8 + #ODS9 #ODS10 + #ODS11 + #ODS12 + #ODS13 + #ODS14 + #ODS15 + #ODS16 + #ODS17 OBRIGADO A TODOS OS-HOMENS QUE AO LONGO DA  VIDA AMAM E TRATAM COM DIGNIDADE A-MULHER.