Saturday, 16 October 2021

OS BARULHOS DE PAVLOV | RETHINKING SUSTAINABLE GOALS

SÉRIE -  RETHINKING SUSTAINABLE DEVELOPMENT  GOALS
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Vicente Dantas  tinha oitenta e nove anos. vivia num quarto de lar de idosos. o Vicente dividia o  quarto com o Alberto.  o Alberto fazia muitos-barulhos. barulhos que  irritavam o Vicente porque  faziam-lhe lembrar dos-barulhos de mastigar comida com a boca aberta. boca que o Vicente abria todos os dias para reclamar. é para o seu bem, senhor doutor. respondia a enfermeira. o Vicente  compreendia então que era doutor  de-alguma-coisa. dez horas da manhã. horas que o Vicente sabia porque eram horas do cheiro a pão  e do cheiro a ovos. ovos que o Vicente comia primeiro, não porque gostava, mas porque tinham cor. barulhos e mais barulhos. irritação dos barulhos que  faziam o Vicente engolir a comida sem  mastigar.  com a cabeça cheia de barulhos o Vicente caminhou  para a tabacaria onde tinha de comprar um postal com fotografias de animais. postal que tinha de enviar a-alguém.  cabeça cheia de barulhos que não deixava saber a quem. tabacaria  propriedade do  António. António que não fazia barulhos. tabacaria que nesse dia tinha uma mulher que o Vicente não reconhecia. o Vicente pediu para falar com o  António. a mulher respondeu qualquer coisa que o Vicente  não percebeu.  barulhos e mais barulhos. venho cá mais tarde quando o  António cá estiver porque ele já me conhece e sabe o que eu quero.  a mulher  respondeu: eu também o conheço até já o deixei ir à minha casa-de-banho . o Vicente ficou confuso. o Vicente  não se recordava de alguma vez ter   pedido àquela mulher para ir à casa-de-banho. porém admitia ter sido possível. o Vicente precisava de ir muitas vezes à casa-de-banho. a mulher lembrava o Vicente da mariazinha que também se lembrava sempre de tudo. qualidade que  o Vicente se lembrava de apontar como grande-defeito. barulhos e mais barulhos. o Vicente agradeceu e saiu lentamente da tabacaria sem o postal que tinha de enviar a alguém. barulhos e mais barulhos. ao chegar ao lar o Vicente  dirigiu-se para a biblioteca. estava lá o Alberto. barulhos e mais barulhos. porque é que este homem persegue-me para todo o lado? pensou o Vicente furioso. barulhos e mais barulhos.  Alberto que caiu no chão. onda de barulhos e mais barulhos. o Vicente deu um salto e   correu para ajudar o Alberto. barulhos e mais barulhos. o Alberto apertou-lhe a mão e disse: amo-te muito, meu irmão. barulhos e mais barulhos. quando a enfermeira chefe chegou o Alberto tinha parado de fazer barulhos. o Vicente perguntou zangado à enfermeira chefe:  porque não me disse que ele era o meu irmão?! enfermeira chefe que  mexia os lábios pintados em câmara lenta. lábios pintados que desenhavam feitiços em tons pastel. meu querido senhor doutor talvez a dor  da perda do seu irmão  esteja a ser tão grande que o faça não conseguir  lembrar-se das minhas palavras de todos os dias.   o Vicente ouviu o barulho familiar dos pratos. feitiço dos lábios pintados  quebrado. barulhos e mais barulhos. barulhos dos pratos  que faziam crescer água na boca do Vicente. abundância de saliva  que fez o Vicente  esquecer  a razão.  barulhos e mais barulhos.  aperto de tristeza no peito, deve ser da fome, pensou o Vicente.   baba limpa à manga da camisa. barulhos e mais barulhos. 

#ODS1 + #ODS2 + #ODS3 + #ODS#4 + #ODS5 + #ODS 6 + #ODS7 + #ODS8 + #ODS9 + #ODS10 + #ODS11 + #ODS12 +#ODS13 + #ODS14 + #ODS15 #ODS16 + #ODS17 OBRIGADO A TODAS AS PESSOAS  IDOSAS PELA VALIOSA LIÇÃO DE HUMILDADE QUE ENTREGAM À HUMANIDADE.